Por Camilla Sanches
Mais uma vez, Ciro Marcondes Filho. Desta, o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), doutor pela Universidade de Frankfurt e pós-doutor por Grenoble, faz um relato sobre o que ele chama de A saga dos cães perdidos. Traduzindo, o escritor, também jornalista, narra a trajetória da classe à qual ele pertence com um olhar, muitas vezes, de quem vê por fora, de longe, não fazendo parte.
Inicia, então, fazendo uma analogia entre a modernidade e a história do jornalismo: “O jornalismo é síntese do espírito moderno”. Explica que, assim como na modernidade, a razão – a verdade, transparência, no caso do jornalismo – é a grande matriarca das decisões na sociedade, superando a antiga “tradição obscurantista”. Jornalistas eram aqueles que tinham fé sem quaisquer restrições no progresso, atacavam a política e a ordem vigentes, bem como acreditavam que o ser humano viveria um processo de aperfeiçoamento contínuo. Muitos ainda crêem nisso. Essa é, talvez, a grande áurea mágica que circunda a profissão.
Este livro pode ser considerado um manual do jornalista, um guia com opiniões daquilo que o profissional devia ou não fazer, de que maneira atuar ou não em determinadas situações. Marcondes Filho aborda diversos pensamentos dos mais variados autores, muitos deles não são jornalistas. Esta é a grande graça. Uma classe que adora criticar, mas detesta ser alvo de críticas sendo amplamente repreendida num texto de um dos seus. Por isso, o título de manual que me atrevo a dar. Ao final de cada capítulo, o autor cita análises de pensadores sobre atitudes dos jornalistas. Muitas dizem respeito a como eles se enxergam e como agem diante de seus leitores e de outras classes. Não à toa, a maior crítica feita a nós é a de nos sentirmos semideuses.
O autor faz um passeio pelas origens do jornalismo, nascido da Revolução Francesa numa época em que os poderes da Igreja e da universidade são destituídos. “A modernidade dos direitos sociais e humanos viu nascer no seu seio a figura do jornalista”, lembra. Durante esta revolução se conquista o direito à informação. E quem alimentou o povo faminto de saber, de notícias? Os jornalistas, como não. Em busca de satisfazer a demanda do mercado, eles exploram, escavam, vasculham, viram o mundo de cabeça pra baixo. É o primeiro momento a se falar em transparência. Todos têm direito a saber de tudo.
Ao longo do texto, o jornalismo será dividido em fases. Na primeira, o político-literário, completamente partidário e doutrinário. Aparecem as redações totalmente autônomas. O que importa aqui é formar opinião, conscientizar o público. O jornalismo ainda não é um produto a serviço do mercado. Ele serve à sociedade. Imparcialidade? Jamais, nem naquela época, nem hoje. Formadores de opinião não podem apenas ter um pensamento, têm que disseminá-lo. Este era o papel dos jornalistas.
O conceito de esfera pública proletária surge por volta do século 19 e tudo isto cai por terra. Os jornais agora obedecem a seus donos com a função primordial de gerar lucro. Esta segunda fase que serve ao capital nasceu com as inovações tecnológicas no processo de produção do impresso. A publicidade entra em campo com muito mais espaço que as matérias e o que se escreve deve passar antes pelo crivo do anunciante, aquele que banca o veículo. Entra o editor para estabelecer os limites do que o redator pode escrever. Fim da autonomia de outrora. Inicia-se, concomitantemente, a terceira fase. Marcondes Filho chega a dizer que neste momento, final do século XX, a atividade jornalística perde toda sua caracterização.
A última fase do que, segundo o autor, ainda se pode chamar de jornalismo é a da era tecnológica, agora muito mais avançada que antes. O repórter, ser humano, é substituído pelos sistemas de comunicação eletrônica. Perdeu-se o “papel histórico do jornalista”. Ele não é mais aquele revolucionário, sempre em busca da verdade, analista, crítico do mundo. “A tecnologia virtualiza o trabalho” do profissional e interfere de forma destrutiva no conteúdo. Hoje é o repórter e o computador. Vive-se uma era solitária.
Nesta nova e, aparentemente, definitiva fase, a imagem reina soberana sobre o texto. Este tendo que se adequar àquela. Percebe-se como a tecnologia influenciou e modificou a atividade jornalística. Em muitos casos, a fez perder sua credibilidade. No primeiro momento, a produção em massa de jornais com fins de geração de lucro. No segundo, com a Guerra Fria, a revolução dos hardwares e da grande rede. Novamente a guerra gerando progresso, por mais que não tenha sido concebida para isso. Os primeiros aparelhos foram de uso militar.
O autor não recrimina drasticamente a informatização. Ao contrário, sabe que é uma questão de evolução. “Não se trata de lamentar processos extintos, mas de avaliar como revitalizar os valores decisivos que estão soterrados”. E cita alguns exemplos: “o trabalho atento, criterioso, o componente do ser humano não redutível a bit de paixões, emoções”, não se esquecendo de se pautar pela ética sempre independente da situação. Ele cita Jean-Marie Charon: “a informação que antes era preciso buscar vem espontaneamente ao jornalista”. Isso me lembra uma máxima que já escutei de vários jornalistas renomados, mas os quais prefiro resguardar os nomes: “Fonte que se oferece não presta!”.
Como fez no livro Jornalismo fin-de-siècle, volta a criticar os manuais de redação adotados pelos veículos para instruírem e de certa forma uniformizarem o texto dos repórteres.
Uma das partes mais engraçadas do texto, que obviamente não foi feito com esta intenção, é a parte em que ele cita Jacques Lacan comparando o jornalismo a um cemitério de profissões. “Historiadores, políticos, economistas, padres, cineastas, romancistas”, advogados, escritores, todos fracassados. Como a ele, a mim também o jornalismo não deixa de encantar, de absorver todas as energias e de saciar essa vontade extremada e anarquista de revolucionar ou, no mínimo, mudar um pouquinho este mundo.
Somos naturalmente e essencialmente revoltados, insatisfeitos, indignados com o que nos cerca e isso nos inquieta de tal forma que o texto é a transcrição de nossa inquietude. Fazê-lo com responsabilidade e conhecimento do fato é o elementar. Buscar uma objetividade e uma neutralidade, muitas vezes inatingíveis. Mas o exercício de tentar alcançar é importante. Manter distância sentimental e profissional daquilo que se escreve é fundamental nesta tentativa. E ser ético em todas as circunstâncias.
A necessidade de um órgão que fiscalize a profissão salta aos olhos. E este é outro ponto criticado no texto e embasado pela voz de muitos autores. Pierre Bourdieu é um bom exemplo, outro crítico voraz do jornalismo. Alguns jornalistas consideram essa possibilidade, contudo a grande maioria se acha acima das demais e julga tal feito um ato de censura. A liberdade de imprensa é usada como pretexto para fugir da responsabilidade. Existem órgãos que regulamentam todas as áreas de prestação de serviço. Conselhos de medicina, ordem dos advogados são exemplos. Todo ser humano é passível de erro. O jornalista não é o deus que pensa, também erra e tem que responder pelo erro como qualquer profissional.
O livro é um puxão de orelha e um chamado aos dispersos da profissão. É preciso repensar a atividade de uma maneira mais responsável e crítica para que não nos percamos mais, nem desviemo-nos do nosso caminho: informar conscientemente, para dizer o mínimo.