Junho 16, 2008

Dê cultura à cultura

Por Emerson Viana

 

“É prova de alta cultura dizer as coisas mais profundas do modo mais simples”

 Ralph Waldo Emerson

 

            A frase acima, do pensador, escritor e filósofo norte-americano traduz com precisão aquilo que o jornalista Daniel Piza reflete em Jornalismo cultural (Contexto, 2003). De um modo geral, a idéia que o senso comum nutre sobre cultura é que ela seja tudo aquilo que represente o comportamento humano. O erro está em associar essa representação a uma descrição erudita, acadêmica. A forma como as publicações jornalísticas noticiam as manifestações e eventos culturais é o foco principal, mas não o único, do livro.

            Desde o início o autor aborda as características que diferenciam o jornalismo cultural das demais editorias. Uma delas está na maneira como é visto, “desempenhando um papel algo secundário”, na imprensa brasileira. A força deste tipo de jornalismo está na interpretação e opinião de quem o pratica. Isso, de certa forma, contribui para a forma preconceituosa como é visto. E é contra esse pensamento que Piza desenvolve suas observações. Outra questão importante refere-se à linguagem utilizada. Ela deve ser mais elaborada ou mais acessível? Deve levar em conta a distinção entre um público mais intelectualizado ou mais popular? Essas são reflexões recorrentes na obra.

            O livro apresenta uma rápida referência histórica do que seria a origem do jornalismo cultural. Jornais, revistas e escritores são mencionados como promotores de um estilo jornalístico que buscava se diferenciar ao oferecer interpretações menos sisudas. Segundo avaliação do autor, a Europa vê o jornalismo cultural com mais seriedade, principalmente no que se refere à análise. A participação de intelectuais confere status dentro das redações. Uma das razões para a falta de credibilidade aqui está no domínio de assuntos ligados às celebridades e num menor critério de avaliação dos produtos.

            Numa passagem mais teórica, Piza descreve um cenário sob a perspectiva da comunicação de massa. Analítico, o autor discorre sobre indústria cultural, entretenimento e a dificuldade para se avaliar as obras culturais devido a uma tendência mercadológica que, segundo interesses comerciais, influenciam na produção cultural. Assim, fatores secundários se tornam determinantes de uma avaliação negativa ou positiva. Bem como no “tipo” de crítica que será feita. Isso inclusive em colunas de opinião, onde, segundo o autor, a análise pode assumir um tom mais pessoal.

Jornalismo cultural é praticamente um manual para profissionais ou estudantes de jornalismo. Como num guia, traz orientações didáticas àqueles que têm a intenção de se dedicar ao estilo. Isso fica claro nas “Dez dicas fundamentais para escrever ou fazer entrevistas” e na bibliografia comentada, onde recomenda obras imprescindíveis, relacionadas à crítica cultural.  

            Daniel Piza escreve com a propriedade de quem já trabalhou em importantes jornais. Ele claramente assume o papel de defensor de um estilo jornalístico que é visto por seus pares de uma forma preconceituosa. Tenta desmistificar a idéia de que o jornalismo cultural não seja imprensa séria e enfatiza se tratar de uma atividade idêntica à de outras editorias tradicionais, com as mesmas exigências de clareza, coerência, prazos e cobranças.

O autor encerra com um olhar de quem já experimentou os bons tempos de um estilo jornalístico que hoje procura se manter ante o interesse de apelo sensacionalista das celebridades e o comportamento da moda. Ainda assim, mantém a esperança numa recuperação e em dias melhores.

Junho 16, 2008

Barbie, reflexo feminino

Por Luciano Franklin

 

           Os processos habituais envolvidos nas brincadeiras com bonecas, como casar, estar na moda, cuidar da casa e aparentar aspectos do cotidiano familiar tradicional, vêm se transformando ao longo dos anos. As representações da figura feminina nas bonecas, sugeridas pelos comerciais no final da década de 1950 para os comerciais atuais, são exemplos de mudanças socioculturais. O produto escolhido para análise foram as propagandas de mídia televisiva das bonecas Barbie dos anos 50 aos anos 2000.

A Barbie foi criada por Ruth Handler e o seu marido Eliot em 1936. A idéia foi de Ruth, que sempre via a sua filha Bárbara brincando com bonecas de papel. Foi então que lhe surgiu a idéia de criar uma boneca que trocasse de roupa, com uma feição adulta diferente das bonecas da época. A boneca Barbie foi lançada em 1958, baseada num modelo de beleza e juventude. A partir dai, tornou-se a boneca mais vendida no mundo.

Diz Douglas Kellner, no livro Cultura da mídia (1995), que “a mídia molda a vida diária influenciando o modo como as pessoas pensam e comportam construindo suas próprias identidades”. A mídia tem um papel pedagógico, ou seja, o papel de educar o receptor mostrando o que é certo e errado. Os comerciais da boneca Barbie, transmitidos em TV aberta no começo dos anos 1960 nos Estados Unidos, tinham essa função. Mostravam à criança um modelo de sociedade patriarcal e consumista. As primeiras propagandas apresentam imagens como a boneca desfilando em vários design de roupas da época. Modelos ricos em detalhes e específicos de uma classe afortunada da sociedade, remetendo a uma idéia consumista. Em 1963, os comerciais passaram a mostrar mais um modelo de sociedade que previamente deveria ser seguido. A boneca aparecia em sua “casa dos sonhos” vestida de noiva e com seu futuro marido, o Ken. A Barbie fazia compras, viajava para o campo com seu marido e desfilava com seu incrível jipe cor de rosa. Estes comerciais educavam as crianças para uma sociedade em que a mulher necessitava cuidar da casa e do marido, além de permanecer linda para tais ocasiões.

              De acordo com Kellner, “a cultura da mídia fornece o material para as pessoas criarem seu senso de classe, etnia e raça”. Entretanto, esta cultura é apta a mudanças temporais, pois ela segue o cotidiano da sociedade. Os comerciais da Barbie também mudaram com o passar dos anos. O modelo de sociedade colocado para as crianças a partir da década de 80 já era outro. A boneca já usava roupas fashion e tinha uma profissão: médica, veterinária, professora. A Barbie já não aparecia tanto com o Ken, seu namorado/marido, e sim com as amigas e ela já não administrava sua casa e sim seu salão de beleza, seu consultório veterinário.

Por meio do processo de auto-criação e estímulos oferecidos pela mídia, a brincadeira com bonecas conduz as crianças a uma forma imaginária de antecipar sua atuação em futuros papéis sociais como adultos.

Não somente a cultura da mídia participa deste processo de auto-criação. A representação social do mundo feminino mostrado pelos comercias da Barbie como imagens do que é esteticamente preferível – cabelos lisos, cintura fina, alta estatura, olhos claros – também mostram à criança aquilo que se deve seguir. Porém, o ideal de feminilidade representado pela mídia é inacessível, podendo gerar auto-rejeição. De acordo com a autora Denise Jodelet, a representação social “é uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada que tem uma dimensão prática e que concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. As representações sociais também criam novos estereótipos e reconstrói o objeto. O exemplo disso é o comercial da Barbie apresentado em 1996 em que a boneca aparece patinando em pistas de patinação radical com capacete e luvas. A representação é recriada, pois um esporte considerado tão masculinizado substituiu uma representação antiga de que esporte de homem é para homem e esporte para mulher é para mulher.

Não podemos esquecer que ao promoverem mudanças na aparência estética das bonecas, por exemplo, as crianças estão fazendo uso das mesmas não somente enquanto figuras representativas da identidade feminina, mas também enquanto recursos criativos, passíveis de terem suas personalidades modificadas das mais diversas formas. Portanto, os comerciais da boneca Barbie são reflexos de uma representação criada pela mídia que recria e cria a realidade externa cotidiana da sociedade.

 

 

Junho 16, 2008

A saga dos semideuses expulsos do Olimpo

Por Camilla Sanches

Mais uma vez, Ciro Marcondes Filho. Desta, o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), doutor pela Universidade de Frankfurt e pós-doutor por Grenoble, faz um relato sobre o que ele chama de A saga dos cães perdidos. Traduzindo, o escritor, também jornalista, narra a trajetória da classe à qual ele pertence com um olhar, muitas vezes, de quem vê por fora, de longe, não fazendo parte.

Inicia, então, fazendo uma analogia entre a modernidade e a história do jornalismo: “O jornalismo é síntese do espírito moderno”. Explica que, assim como na modernidade, a razão – a verdade, transparência, no caso do jornalismo – é a grande matriarca das decisões na sociedade, superando a antiga “tradição obscurantista”. Jornalistas eram aqueles que tinham fé sem quaisquer restrições no progresso, atacavam a política e a ordem vigentes, bem como acreditavam que o ser humano viveria um processo de aperfeiçoamento contínuo. Muitos ainda crêem nisso. Essa é, talvez, a grande áurea mágica que circunda a profissão.

Este livro pode ser considerado um manual do jornalista, um guia com opiniões daquilo que o profissional devia ou não fazer, de que maneira atuar ou não em determinadas situações. Marcondes Filho aborda diversos pensamentos dos mais variados autores, muitos deles não são jornalistas. Esta é a grande graça. Uma classe que adora criticar, mas detesta ser alvo de críticas sendo amplamente repreendida num texto de um dos seus. Por isso, o título de manual que me atrevo a dar. Ao final de cada capítulo, o autor cita análises de pensadores sobre atitudes dos jornalistas. Muitas dizem respeito a como eles se enxergam e como agem diante de seus leitores e de outras classes. Não à toa, a maior crítica feita a nós é a de nos sentirmos semideuses.

O autor faz um passeio pelas origens do jornalismo, nascido da Revolução Francesa numa época em que os poderes da Igreja e da universidade são destituídos. “A modernidade dos direitos sociais e humanos viu nascer no seu seio a figura do jornalista”, lembra. Durante esta revolução se conquista o direito à informação. E quem alimentou o povo faminto de saber, de notícias? Os jornalistas, como não. Em busca de satisfazer a demanda do mercado, eles exploram, escavam, vasculham, viram o mundo de cabeça pra baixo. É o primeiro momento a se falar em transparência. Todos têm direito a saber de tudo.

Ao longo do texto, o jornalismo será dividido em fases. Na primeira, o político-literário, completamente partidário e doutrinário. Aparecem as redações totalmente autônomas. O que importa aqui é formar opinião, conscientizar o público. O jornalismo ainda não é um produto a serviço do mercado. Ele serve à sociedade. Imparcialidade? Jamais, nem naquela época, nem hoje. Formadores de opinião não podem apenas ter um pensamento, têm que disseminá-lo. Este era o papel dos jornalistas.

O conceito de esfera pública proletária surge por volta do século 19 e tudo isto cai por terra. Os jornais agora obedecem a seus donos com a função primordial de gerar lucro. Esta segunda fase que serve ao capital nasceu com as inovações tecnológicas no processo de produção do impresso. A publicidade entra em campo com muito mais espaço que as matérias e o que se escreve deve passar antes pelo crivo do anunciante, aquele que banca o veículo. Entra o editor para estabelecer os limites do que o redator pode escrever. Fim da autonomia de outrora. Inicia-se, concomitantemente, a terceira fase. Marcondes Filho chega a dizer que neste momento, final do século XX, a atividade jornalística perde toda sua caracterização.

A última fase do que, segundo o autor, ainda se pode chamar de jornalismo é a da era tecnológica, agora muito mais avançada que antes. O repórter, ser humano, é substituído pelos sistemas de comunicação eletrônica. Perdeu-se o “papel histórico do jornalista”. Ele não é mais aquele revolucionário, sempre em busca da verdade, analista, crítico do mundo. “A tecnologia virtualiza o trabalho” do profissional e interfere de forma destrutiva no conteúdo. Hoje é o repórter e o computador. Vive-se uma era solitária.

Nesta nova e, aparentemente, definitiva fase, a imagem reina soberana sobre o texto. Este tendo que se adequar àquela. Percebe-se como a tecnologia influenciou e modificou a atividade jornalística. Em muitos casos, a fez perder sua credibilidade. No primeiro momento, a produção em massa de jornais com fins de geração de lucro. No segundo, com a Guerra Fria, a revolução dos hardwares e da grande rede. Novamente a guerra gerando progresso, por mais que não tenha sido concebida para isso. Os primeiros aparelhos foram de uso militar.

O autor não recrimina drasticamente a informatização. Ao contrário, sabe que é uma questão de evolução. “Não se trata de lamentar processos extintos, mas de avaliar como revitalizar os valores decisivos que estão soterrados”. E cita alguns exemplos: “o trabalho atento, criterioso, o componente do ser humano não redutível a bit de paixões, emoções”, não se esquecendo de se pautar pela ética sempre independente da situação. Ele cita Jean-Marie Charon: “a informação que antes era preciso buscar vem espontaneamente ao jornalista”. Isso me lembra uma máxima que já escutei de vários jornalistas renomados, mas os quais prefiro resguardar os nomes: “Fonte que se oferece não presta!”.

Como fez no livro Jornalismo fin-de-siècle, volta a criticar os manuais de redação adotados pelos veículos para instruírem e de certa forma uniformizarem o texto dos repórteres.

Uma das partes mais engraçadas do texto, que obviamente não foi feito com esta intenção, é a parte em que ele cita Jacques Lacan comparando o jornalismo a um cemitério de profissões. “Historiadores, políticos, economistas, padres, cineastas, romancistas”, advogados, escritores, todos fracassados. Como a ele, a mim também o jornalismo não deixa de encantar, de absorver todas as energias e de saciar essa vontade extremada e anarquista de revolucionar ou, no mínimo, mudar um pouquinho este mundo.

Somos naturalmente e essencialmente revoltados, insatisfeitos, indignados com o que nos cerca e isso nos inquieta de tal forma que o texto é a transcrição de nossa inquietude. Fazê-lo com responsabilidade e conhecimento do fato é o elementar. Buscar uma objetividade e uma neutralidade, muitas vezes inatingíveis. Mas o exercício de tentar alcançar é importante. Manter distância sentimental e profissional daquilo que se escreve é fundamental nesta tentativa. E ser ético em todas as circunstâncias.

A necessidade de um órgão que fiscalize a profissão salta aos olhos. E este é outro ponto criticado no texto e embasado pela voz de muitos autores. Pierre Bourdieu é um bom exemplo, outro crítico voraz do jornalismo. Alguns jornalistas consideram essa possibilidade, contudo a grande maioria se acha acima das demais e julga tal feito um ato de censura. A liberdade de imprensa é usada como pretexto para fugir da responsabilidade. Existem órgãos que regulamentam todas as áreas de prestação de serviço. Conselhos de medicina, ordem dos advogados são exemplos. Todo ser humano é passível de erro. O jornalista não é o deus que pensa, também erra e tem que responder pelo erro como qualquer profissional.

O livro é um puxão de orelha e um chamado aos dispersos da profissão. É preciso repensar a atividade de uma maneira mais responsável e crítica para que não nos percamos mais, nem desviemo-nos do nosso caminho: informar conscientemente, para dizer o mínimo.

 

Junho 16, 2008

Brasília de todos os santos, encantos e axés

Por Camilla Sanches

 

Quando cheguei a Brasília deparei-me com um sem fim de coisas novas, como em todo lugar que me dispus a ir, seja para morar ou apenas para visitar. Porém, venhamos e convenhamos, como que não seria novidade para uma interiorana, recém-saída da barra da saia da mãe, das avós e, por que não, da bainha da calça do pai, deparar-se com uma cidade com várias outras cidades dentro, onde as ruas não possuem mais os tradicionais nomes de alguém famoso pelo que quer que tenha feito de bom (ou de mau?!) em vida. O que encontrei foi uma série de números e letras com todas as derivações de Qs, Cs, Ws etc. É W3, CSB, QR, QN, QNJ, L, E, F… guardadas as devidas variações sul e norte. Não existem bairros e as ruas, na verdade, são quadras.

É setor de tudo e para tudo. Setor de indústrias, de automóveis, de comércio, de bancos… As estradas são parques (EPTG, EPIA, EPNB, EPCT…) ligando no mínimo duas cidades, ou micro-cidades, as famosas cidades-satélites, todas estas contidas na menor ainda, Brasília. Por falar nela, jaz aí outra dúvida desta reles mortal deslocada. Sempre que volto de férias à minha cidade natal, sou indagada sobre onde estou morando. Respondo que é em Brasília, mais por preguiça do que por qualquer outro motivo, afinal de contas a discussão quanto a se é Brasília ou não é de uma polêmica que não me atrevo a discutir. Preguiça de explicar que a capital federal é um misto de cidades e, na verdade, são pouquíssimos os que vivem nela, já que, para seus idealizadores e planejadores – de um projeto que parece não ter dado muito certo – somente as asas Sul e Norte, o Congresso e a parte do Cruzeiro que engloba o Setor Militar são considerados como Brasília. Em outras palavras, somente o Plano Piloto da capital do país, nome que acabou instituído por falta de outro melhor (quem sabe?), ao menos no papel, pode ser chamado de Brasília. Mas vá tentar explicar isso a quem não vive aqui ou mesmo para os próprios habitantes. Sequer eu entendo.

Voltando às novidades, ou melhor, esquisitices brasilienses ou candangas, como queira, com as quais me deparei. Chegando aqui minha árvore genealógica deu um salto demográfico. Não, não me casei ainda, tão pouco reproduzi feito coelho. Contudo o número de tios e tias que agreguei à minha família é infindável. Todos os pais e mães de amigos ou qualquer adulto mais velho passam a ser chamados assim pelos mais novos e, de tanto ouvir, não há como não repetir.

Além de a cidade ser conhecida como a capital federal (o que é de verdade), é ainda a capital da corrupção, dos concursos, dos empregos e, sem dúvida, dos botecos, barzinhos de esquina, de centro, de onde for. Nunca vi lugar para ter tanto bar! Quem nunca saiu de um “buteco” para outro em plena madrugada brasiliense? Ou fechou o Mané das Codornas (Guará) junto com os funcionários, baldes, rodos e vassouras? Ou ainda nunca terminou a noite numa das incontáveis bombas espalhadas por cada canto da(s) cidade(s)? Em dois anos, já perdi a conta de quantas vezes já fiz isso.

Seja Brasília, Entorno, cidade-satélite, enfim, todos estes aglomerados urbanos (e muitas vezes nem tão urbanos assim) que constituem este planalto central são a prova maior da imensa diversidade brasileira. Aqui se reúnem as mais variadas tribos e os mais diferentes gostos. Mentira das maiores é dizer que aqui só se curte rock’n’roll. É também a cidade do funk carioca, da MPB, do velho e bom sertanejo bem brasileiro e goiano, do axé baiano (Vixe, mainha! Aqui têm mais shows do que em Salvador).

Tem assaltos, mortes, acidentes de trânsito, mas peraí, cara pálida, onde é que não tem tudo isso?! Corrupção? Tem, tem sim (e como!). Mas também não é porque é aqui que eles dizem trabalhar os míseros três dias por semana, que somos todos seres corruptos. E quanto ao presidente, se o vi? Ora bolas, vá ver se eu ou ele está na esquina!!! Ele sequer anda no Brasil, que dirá em Brasília.

Junho 10, 2008

Nova versão da novela CPMF

Por Catharine Rocha

 

            Há poucos dias fui surpreendida enquanto escutava uma rádio de notícias, pra ser mais especifica a JP AM, e o comunicador Joseval Peixoto anunciou uma matéria em que eram abordadas as investidas dos governistas para a criação de uma nova CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Logo pensei: “Não é possível”. Mas, minutos depois percebi que era sim e que essa novela ainda não tinha chegado ao fim.

 

            Só mesmo uma instituição como o Congresso Nacional brasileiro seria capaz de passar os últimos três meses de um ano discutindo exaustivamente o fim de um imposto, e cinco meses depois pensar em ressuscitá-lo.

 

            Quando a contribuição foi extinta, quer dizer, quando achamos que ela o tinha sido, já não agüentávamos mais sequer ouvir falar no assunto. Nos noticiários não se falava outra coisa, e no Congresso, então, não se discutiu mais nada no fim do ano passado. Até mesmo o Orçamento Geral da União teve que ser votado somente neste ano, porque a CPMF ocupou definitivamente a pauta da Câmara e do Senado.

 

            Após o aparente término desse imposto, foram necessários alguns meses para readequar o orçamento do país e dois novos impostos foram criados na tentativa de recompensar a perda dos R$ 40 bilhões aos cofres da União. Mas, o mesmo imposto que havia chegado ao fim e reincidia sobre todas as transações comerciais não teve nenhuma mudança para o bolso do consumidor, que continuou pagando o mesmo valor pelos produtos.

 

            Agora, com a desculpa de que o governo não tem de onde tirar dinheiro pra investir na saúde, nossos deputados criam a CSS (Contribuição Social para a Saúde). Se eu muito não me engano, essa é uma das áreas em que o governo tem obrigação de investir, e não um mero programa assistencialista que, não havendo recursos, deixa de lado.

 

            O presidente Lula pode até não sancionar a emenda 29, como se espera caso essa CPMF de menor alíquota, 0,1%, não seja aprovada. Mas em momento algum ele pode deixar de lado a saúde pública, aliás, não deveria fazê-lo, porque, do jeito que se encontra hoje, vê-se que ela foi sempre ignorada.

 

            Apesar de toda polêmica e discussão que este tema tem causado em todos os âmbitos da sociedade, provavelmente, a CSS não será aprovada no Senado. Afinal, mesmo os senadores desconhecedores da ética e da moralidade sabem que isso seria aumentar ainda mais o índice de desaprovação, que, diga-se de passagem, não é nada pequeno. Entretanto, não faz mal algum manter um pé atrás e aguardar os próximos capítulos da nova novela exibida diariamente nos noticiários brasileiros.

Junho 10, 2008

A globalização que gera crise

Por Catharine Rocha

 

Com os crescentes conflitos que atingem o modo de pensar da sociedade, Stuart Hall, em seu livro A identidade cultural na pós-modernidade (Editora DP&A, 102 páginas, R$ 16,80), mostra como fenômenos sociais, tais como a globalização e a cultura pós-moderna, estão gerando crises de identidade na modernidade denominada tardia. Ele discute o conceito de identidade e os pontos principais do que teóricos da área de Estudos Culturais apontam como primordiais acerca das relações sócio-culturais na era pós-moderna. Além desta obra, há outro título de Hall no Brasil, o importante Da diáspora: identidades culturais e mediações culturais (Editora UFMG, 2003).

 

Para Hall, a fantasia de uma identidade unificada dá espaço a uma nova visão de cultura que coloca o ser humano em confronto com uma diversidade de identidades, que por vezes são contraditórias, dando ao sujeito o direito de ao menos identificar-se com algumas delas. E essas mudanças de comportamento são o que hoje caracterizam a presente sociedade.

 

A globalização é o fenômeno que gera tais crises de identidade, pois ao integrar as comunidades dá a ela novas características, mudando o pensamento do indivíduo, criando novos caminhos que interconectam o mundo, ora se dirigindo ao passado, ora avançando rumo à modernidade e distanciando por tempo e espaço a humanidade. Stuart Hall percebe que dessa forma as identidades nacionais declinam, dando espaço a novas identidades – híbridas – indicando a cada página lida uma série de pistas importantes para entender todo este contexto das culturas na era pós-moderna.

 

Após este estudo detalhado, percebe-se que a perda das antigas identidades implica num forte esforço de retornar à “tradição”, buscando coesão de identidades. Exemplos disso são o capitalismo e o marxismo. Deve-se encarar a globalização numa perspectiva deslocada, assim como as idas e voltas das identidades, mesmo que seja um grande desafio redimensionar a figura do indivíduo e da sociedade sobre outros paradigmas existentes.

 

Um dos fundadores dos polêmicos Estudos Culturais e da “pós-disciplina”, Stuart Hall é um grande interessado pela diáspora, é tema marcante de sua vida de jamaicano. Radicado desde 1951 na Inglaterra, onde é reconhecido pelo seu engajamento nos debates sobre as dimensões político-culturais, dirigiu o Centro de Birmingham em seu período mais produtivo. Luta pela articulação teórica dos movimentos anti-racistas e vem desempenhando satisfatório papel na disseminação de tais idéias. Uma obra de leitura instigante e altamente qualificada. Indicado para todos os acadêmicos, principalmente aqueles que já estão enfrentando sérias crises de identidade. Confiram.

Junho 10, 2008

Clooney se firma na direção

Por João Paulo  Biage

 

O segundo longa-metragem de George Clooney como diretor, Boa noite e boa sorte (Good Night, and Good Luck, EUA, 2005) é um filme que atinge seu objetivo com simplicidade e sem apelação. Objetivo este de externar um clássico caso de censura interna nos Estados Unidos na década de 1950 promovida pelo, na época, senador republicano Joseph McCarthy. O filme conta em seu elenco com atores como David Strathairn, Robert Downey Jr., Jeff Daniels e o próprio diretor Clooney. Elenco pouco conhecido mas com atuação impecável no decorrer do filme.

Boa noite e boa sorte é todo produzido em preto-e-branco. Nenhuma das cenas possui outro esquema de cores. E isso se dá pelo fato de, no filme, possuir várias imagens reais de entrevistas e discursos de McCarthy que não eram coloridas. Ficaria um tanto estranho para o público assistir ao filme todo em cores e apenas algumas partes em preto-e-branco. O filme é levado como fosse um documentário, não fosse o lirismo existente.

A trilha sonora é interessante, composta em sua maioria por músicas lentas. Muito jazz, que era a moda na época. Além disso, o enfoque do filme é muito objetivo, evitando mostrar a vida pessoal dos personagens e focando 100% do tempo no trabalho deles. O protagonista Ed Murrow, por exemplo, jamais é mostrado fora do ambiente do trabalho. É detalhada apenas a vida de um homem e uma mulher por serem casados e não ser permitido tal coisa para quem trabalhava na mesma emissora de TV. Outro fator que caracteriza o filme é a existência de apenas uma cena externa. Todas as outras cenas são gravadas em cenários como a redação da RBS e a casa do casal citado acima.

Boa noite e boa sorte é um filme fascinante que usa de fatos que aconteceram no passado para criticar o presente, apesar de não citar em nenhum momento George W. Bush. Um filme que não chega a ser um primor de Hollywood, mas que deixa qualquer espectador satisfeito com a temática apresentada.

Junho 10, 2008

Lições em doze horas de vida

Por Bárbara Lima

 

Um dos livros de Willian Douglas, A última carta do tenente, é baseado em um fato real. Um tenente do submarino russo Kursk, que afundou em agosto de 2000 com 118 marinheiros a bordo, deixou em seu bolso uma carta destinada a sua mulher. Em pouco mais de 12 horas restantes de vida, conseguiu deixar uma reflexão e lições de quem passou pela experiência de se ver morrendo aos poucos e sem qualquer expectativa de resgate.

            De forma intensa, apaixonada e forte, Willian Douglas consegue adaptar a uma ficção narrativa todo o sofrimento vivido por este homem durante 12 horas.

            A linguagem é clara e direta. A estética do livro, com variações de fundo em preto e branco, remete o leitor à sensação de sofrimento pelo qual o marinheiro e sua equipe passaram. Ao final dele, fotos da esposa e dos marinheiros antes da viagem ajudam o leitor a se sensibilizar mais ainda, trazendo uma maior emoção e comoção à narrativa.

            Com o livro, Willian Douglas instiga no leitor a valorização dos pequenos acontecimentos do cotidiano. Depois da leitura, cada gesto, por mínimo que seja, torna-se um grande acontecimento passível de ser refletido.

Junho 10, 2008

Meu mar em Brasília

Por Bárbara Lima

 

            Brasília não tem mar, mas tem algo muito mais belo a se admirar: o céu. Tanta beleza serviu de inspiração para músicas, poemas, exposições fotográficas, obras de arte. Há todo um encanto neste verdadeiro fenômeno natural. Já dizia Lucio Costa: “O céu é o mar de Brasília”.

            Vejo o céu de Brasília como um lindo, gigantesco e infinito mar. Nele eu navego, brinco, imagino, viajo, vejo bichinhos, sinto vontade de comer algodão doce e até consigo voar.

            Não sei se é mais belo ver o sol nascendo ou se pondo. O arrebol me remete a coisas que jamais pretendo esquecer, coisas que jamais sairão do meu imaginário, coisas tão profundas como o infinito deste verdadeiro mar.

            Consigo ir além e consigo imaginar minha vida daqui a alguns anos. Consigo encontrar paz, serenidade… uma calma quase que impossível de se obter nos dias de hoje.

Olhando as nuvens, fico a imaginar minha avó passeando e sorrindo para mim, dizendo “estou muito feliz aqui”. Consegui inclusive imaginar o reencontro entre minha avó e minha tia em meio às poucas nuvens do céu de Brasília.

            Viajando de estado em estado, tentei descobrir o que faz do céu de Brasília ser o mais lindo que eu já vi, e nunca consegui. Até os pássaros parecem entender que o céu daqui é o mais belo de todos.

            A cada dia ele se difere de alguma maneira. Cada raio de luz que emerge por entre as nuvens (quando há nuvens), aquece o rosto, traz vida, e aquele fio de esperança de que as coisas podem melhorar florescem no coração.

            E mesmo com tanta corrupção, tanta violência, tanta injustiça correndo a solta na capital do Brasil, nada disso é capaz de ofuscar o brilho incomparável da imensidão desse céu.

            Vejo da minha janela o sol se pondo. Lá em cima já consigo ver a lua cheia, que logo brilhará e continuará iluminando esse lindo céu, agora enfeitado por milhões de estrelas que parecem piscar de alegria na imensidão do céu de Brasília.

Junho 10, 2008

Créu, créu, créu

Por Bárbara Lima

 

            Mulher Melancia, Mc Créu, mulheres rebolando até o chão, baile funk, proibidão. Esse modelo de  funk nasceu dentro das favelas atormentadas pela violência e a corrupção. Apelação ou não, o funk é uma forma de expressão cultural.

            A identidade do funk é estabelecida como forma de poder expressar sentimentos e valores das favelas, tornando-se uma espécie de rótulo, formando assim a identidade cultural. Corrompida ou não, tal identidade é a miscigenação de hábitos e costumes do contato entre as favelas mais pobres do Rio de Janeiro.

Ele conquistou seu próprio espaço sem a manipulação da indústria cultural ou a imposição dos meios de comunicação. Na origem, os produtores funkeiros não têm espaço de divulgação na mídia brasileira. Estabelecem cumplicidade com a comunidade local, lotam bailes e terminam por chamar a atenção. A mídia, então, descobre o “fenômeno”. Essa divulgação ocorre de forma natural. As músicas passeiam por todas as comunidades carentes do Rio. Só depois de reconhecido o sucesso, são divulgadas para os demais bairros, cidades, estados e até países. Os CDs são fabricados por eles mesmos, e divulgados de comunidade em comunidade. Para se ter uma idéia, hoje um dos maiores eventos no Rio de Janeiro é o chamado Furacão 2000, em que funkeiros cariocas se reúnem para a gravação de um CD e DVD com seus maiores sucessos.

            O sucesso do funk carioca contraria vários pontos de teses que defendem o funcionamento da indústria cultural no Brasil. O funk é um exemplo de produto cultural que não é imposto e que ganhou vida própria, deixando de ser um mero produto, e passando a formar a identidade cultural das diversas comunidades carentes que vivem no Rio de Janeiro.