Por Luciano Franklin
Ricardo Noblat, nascido e formado em Pernambuco, é autor dos livros A arte de fazer um jornal diário, O que é ser jornalista e Céu dos favoritos. Usa de sua experiência como jornalista para descrever e discutir temas considerados importantes para a prática de sua profissão. Atualmente mantém um blog no site O Globo.
A arte de fazer um jornal diário, publicado pela editora Contexto em 2003, é um livro interessantíssimo para quem busca críticas, dicas, análises, reflexões e uma pitada de veia cômica sobre o jornalismo impresso contemporâneo. Ao apresentar as dúvidas que o leitor tem sobre a profissão e atuação na imprensa diária, a orelha da obra desperta para leitura do livro.
O alucinado ofício, tão incompreensível e voraz, segundo Gabriel García Márquez, faz parte da mensagem de abertura do livro, que por sinal é uma mensagem muito bem representada nas histórias contadas por Noblat no decorrer da obra. A partir daí, ele escreve no primeiro capítulo de uma forma engraçada e interresante um diálogo, mostrando a visão de um cidadão e de um jornalista sobre como o jornal é feito hoje. O fato de o jornalista personagem ser prepotente, a ponto de decidir a importância da notícia na conversa com o cidadão, mostra que o jornal mantém um estilo ainda muito antigo em relação aos interesses do público. Após esse diálogo, o autor faz boas análises sobre o futuro do jornal.
A perda de leitores provoca o medo do modelo atual, causando grande preocupação com o futuro do impresso. Basicamente, o autor sugere por meio de suas reflexões como trabalhar e melhorar o ambiente de um jornal, oferecendo dicas para que um jornalista se diferencie de outros.
“Escrevam uma notícia como se contassem a história a um amigo.” A notícia é a principal fonte de trabalho jornalístico, por isso a frase de Noblat remete ao fato de que para ser um bom jornalista é necessário saber o que é notícia e como passá-la adiante. Como toda profissão, o jornalismo também tem os seus contras. Os fatos reais relatados no volume provam as dificuldades deste trabalho, como o caso Tim Lopes, que foi assassinado tentando um furo de reportagem a todo custo, colocando sua própria vida em risco. O jornalista tem que saber até que ponto uma notícia é de interesse público, pois, mesmo ela sendo, deve lembrar que justiça não se faz com as próprias mãos, que jornalista não é Deus, e que a ética deve ser seguida.
Ser fiel à verdade e saber seduzir o leitor são as principais dicas repetidas exaustivamente em todo o livro, sendo pontos cruciais para se fazer um bom texto. Sair da pauta comum é enxergar pequenos detalhes na notícia. Noblat afirma que a redação não é o lugar para aprender a escrever. Todavia ele se contradiz com tal afirmação, pois na mesma obra relata que entrou na redação muito novo e foi aprendendo a construir seu texto.
As maiores encruzilhadas que o jornalista passa com os princípios éticos são os melhores destaques proporcionados por Noblat no livro. O caso de boatos, os cuidados com declarações dadas em off e o relacionamento com as fontes são exemplos desse conflito entre o certo e o errado.
A arte de fazer um jornal diário não é um livro apenas de dicas, é também um manual pedagógico para um estudante de comunicação. Traz um conteúdo diferenciado da teoria, mostrando a prática do universo jornalístico. À medida que o leitor lê o livro percebe que há uma aproximação entre autor e leitor, fazendo da obra uma dicotomia entre o modelo ultrapassado e a humanização da informação.