Por Camilla Sanches
O sociólogo, jornalista e, desde 1987, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) Ciro Marcondes Filho é autor de diversos livros sobre o que intitula de Nova Teoria do Jornalismo. Seu quarto livro, Jornalismo fin-de-siècle, está dividido em duas partes. Na primeira, “Crítica do verbo”, o autor faz uma análise, como o próprio título já diz, crítica do papel da imprensa e dos media em geral na nossa sociedade. A segunda e última, que dá nome ao livro, ele define como “um ajuste de contas com o jornalismo”. De acordo com Marcondes Filho, existe a possibilidade de se resgatar o papel do jornalista, mas não como se pensava antigamente. Esse é o objetivo do texto, “mostrar às novas gerações” que é preciso pensar seu papel num mundo que já não se pode mais enganar, isso num contexto de fim do século passado e início do terceiro milênio.
Marcondes Filho inicialmente contextualiza o momento em que o livro foi escrito. Momento este em que ideais caíam por terra, o mundo sentia-se enganado pelas promessas iluministas e desiludido com o papel que o homem assumiu durante aquele período histórico, de herói transformador e revolucionário da situação vigente.
De acordo com o autor, a sociedade em que vivemos e o mundo como um todo estão sob o domínio da palavra (do verbo). Informações são transmitidas com uma velocidade quase incrível e o espaço é de guerra pelo maior acesso ao público, aquele ao qual estas informações de toda ordem são direcionadas. É válido o dito popular de que “jornal de ontem só serve para embrulhar peixe”, dada a busca insana por notícias novas a todo o momento. As causas pelas quais os jornalistas lutam atualmente diferem por completo das lutas sociais da áurea época iluminista, que por sinal sequer existem mais. Porém, a luta segue com o mesmo objetivo: poder. Elemento que tem maior destaque num capítulo dedicado exclusivamente a ele, o qual será mais tarde tratado aqui, e que é citado por todo o texto.
A crítica maior do autor gira em torno do exagero que há em discursos e fala. O uso excessivo do verbo sem o qual, admite ele, não se pode viver, afinal a vida não é feita só de emoções, contrariando o rei Roberto Carlos. Contudo, também “não precisamos ver nossa vida massacrada” pelo verbo. Por mais que seja a capacidade de pensar e falar a respeito de um determinado assunto o divisor de águas entre os homens e os demais animais, segundo Marcondes Filho é também aí que mora o perigo de o verbo se tornar algo de proporções destruidoras. Com o livro, o autor busca derrubar concepções que surgiam naquele final de século, conceitos que pregavam a superação da razão, saltando para uma etapa de pós-razão, como ele chama. O autor prega, ao contrário, o retroagir, voltar no tempo e tentar “reinventar o inesperado, o toque, o olhar, as sensações, o não-verbalizável”. É o que ele denomina de o antilivro.
Ao longo do texto critica ainda a falta de discussão, reflexão teórica e troca de idéias que assola os congressos, os encontros científicos dos novos tempos e, inclusive, as teses de promoção acadêmica. Os expositores estão mais preocupados em carregar seus discursos com frases de efeito, como um político em campanha eleitoral sobre um palanque, e o público se acostumou de tal forma que algo diferente disso não o empolga, tampouco atende suas expectativas. A platéia quer mesmo é ver o circo armado e que os palhaços o façam sorrir e bater palma.
O autor faz ainda uma rápida abordagem sobre a tevê, com uma afirmação um tanto apocalíptica de que a televisão seria agora o único meio de comunicação, e não apenas mais um. Devido ao fato de ela ter introduzido um novo modo de ver o mundo, mais rápido e em cores, e que lida com a ansiedade do público a seu favor, apelando nas excitações para segurar a audiência. Os demais meios, hoje, funcionam tendo como base a tevê, que deixa de funcionar como intermediadora entre o público e o fato e passa a ser ela a razão de si mesma.
Fala ainda sobre a nova forma de abordagem do sexo, exemplificando que a mulher objeto de atração é aquela representada na foto da publicidade, extinguindo a atração sexual física, que se tornou algo apenas simbólico e demasiado abstrato. A visão foi assim supervalorizada, ficando de fora o cheiro, o gosto, o toque.
Retomemos o caso do poder, combustível que move as pessoas em pequenas e grandes instituições e que está por toda parte, apesar de só o percebermos quando de seus efeitos. O principal caráter do poder é o de produzir e transformar o ambiente social, por mais que essa luta por poder ocorra de forma um tanto inversa. Primeiro, o ato, a prática, para só então buscar explicações para o feito.
Com o advento do Iluminismo, não só formas evoluídas de organizar o poder (liberalismo, socialismo) surgiram, como também o irracional passou a dominar. Caímos num precipício de guerras, genocídios, bomba atômica e ameaça nuclear.
Temos o surgimento de novas formas de saber e poder, como o jornalismo, “sedução narcísica das massas”, nas palavras de Marcondes Filho. Enquanto tradicionais conhecimentos perdem seu valor. Ciências como a sociologia, a política e os fundamentos capitalistas deixam aos poucos de ser relevantes, afinal, na política desapareceu a disputa ideológica, bem como na sociologia que assim não possui mais razão de ser, e o capitalismo, ah, o capitalismo que bem-estar nos trouxe?
Os seres humanos tornaram-se espaços controlados pela publicidade e pelos meios de comunicação em geral, tamanha a insignificância do homem atual. A forma como nos vestimos, os locais que freqüentamos e as pessoas com quem nos relacionamos é tudo meio que imposto pelos media, ao passo que usarmos roupas de determinada marca, por exemplo, nos coloca num grupo selecionado de pessoas, nos faz membros de uma espécie de associação. Não somos mais iguais ao restante da multidão (ao menos achamos que não), temos uma identidade. O ser humano necessita pertencer a um grupo, precisa se sentir parte de algo para sobreviver e essa sensação de pertencimento o faz deixar de pensar se está ou não sendo manipulado pelo veículo que vende aquela marca ou aquele modo de vida, enfim.
A imprensa detém o poder que anteriormente pertencia ao Estado e mais anteriormente à Igreja. Ela tem meios para isso: a publicidade, o jogo com as imagens, fazer aparecer e sumir políticos, partidos e movimentos. É sabido que o Estado ainda detém o poder de criar e impor leis, regulamentar e cobrar impostos. Mas seu poder de ação é hoje reduzido comparado ao início da Era Moderna. A grande novidade é o povo com uma arma poderosa, o voto. Este é o meio pelo qual o povo fala, reclama, condena. Quanto a isso, Marcondes Filho sai em defesa dos políticos e da imprensa ao dizer que uma teoria da manipulação das opiniões do povo não existe, posto que este vota, usando palavras suas, desastrosamente.
Que as eleições são um desastre não há o que discutir, todavia dizer que o povo não sofre manipulação ou influência que seja por parte da imprensa com a ajuda dos políticos é um tanto quanto protecionista com a sua classe, caro escritor, para não dizer exagerado. O público é a todo o momento influenciado pelos meios de comunicação, levado a confiar e a acreditar no discurso deles. Sabe-se que o simples fato de uma emissora de tevê ou uma revista de grande circulação assumir uma postura favorável ou não a um político, isso na maioria das vezes vai determinar sua vitória ou derrota nas urnas.
O jornalismo, justiça seja feita, não é de todo o maior dos males. Obviamente não se constitui mais em um veículo de ação política e revolucionária que visa alterar a sociedade. As utopias iluministas, “a intenção de educação das massas, do debate público, da conscientização do cidadão”, caíram por terra. Existia, à época, “a história a se fazer” e o homem era o material bruto a ser lapidado.
A atividade jornalística reside, desde então, no mundo sofisticado da tecnologia, acompanhado da crescente vida solitária das pessoas. Os grandes temas sociais desapareceram e, segundo o autor, os novos personagens em conflito no mundo fictício criado pelos media “não têm enraizada no social nenhuma relevância”, ponto este que merece humildemente uma atualização. Por mais que raros, ainda existem alguns personagens com relevância social. É claro que em contextos específicos, não representando a grande massa social. O relacionamento homossexual, por exemplo, é representado por personagens relevantes socialmente, para atender às expectativas de um público novo e a necessidade de conscientizar mentes conservadoras e de pensamento homofóbico.
Chegamos à tão sonhada e esperada tecnologia. Na era da técnica, o presente é o mais importante. Os meios de comunicação seguem isso à risca. Para eles, o que vale é o “aqui e agora”, homônimo do programa de tevê exibido pela emissora SBT. Vale não publicar notícias muito longas e matérias com mais de três parágrafos. Os jornalistas seguem os parâmetros estabelecidos no manual de redação do veículo para o qual trabalham, desaparecendo a criatividade e a veia literária que perpassava o texto jornalístico.
A linearidade é outra a desaparecer, afinal qualquer dado pode ser acrescentado ou suprimido do texto com a ajuda de um programa de edição. O texto não é mais somente papel, é imagem na tela do computador. O jornal impresso vai aos poucos perdendo sua característica física, palpável. Não há mais por que comprar um pedaço de papel que vai ocupar espaço na sua casa, basta ler a notícia na versão online do jornal, na internet. E, por último, a imagem, da qual o jornalismo não prescindia antes, e graças à televisão tornou-se precedente. Mas a fotografia causa polêmica, dada a possibilidade de sua alteração. Não configura mais como um dado legítimo, qualquer um pode modificá-la e alterar sua essência, basta conhecer um mínimo de PhotoShop.
A rotina de trabalho do jornalista mudou. Tem maior serventia aquele que consegue entregar a matéria em tempo de ser publicada no dia seguinte, do que o jornalista esforçado na apuração mais profunda dos fatos, o que ouve mais fontes e dispõe de mais dados para melhor acrescentar informações ao leitor, porém que gasta mais tempo para produzir, primando pela qualidade do que escreve e não pela agilidade com que pode chegar ao editor.
Dado o descrédito no Estado, na Igreja, na família, nos sindicatos e em tantas outras instituições, emerge a imprensa como a salvadora da pátria. Ela define nossas conversas, nossos interesses, que filme assistir, dentre tantos outros feitos. A imprensa tem credibilidade junto à sociedade.
Retomando algo sobre a questão da manipulação pela imprensa. Marcondes Filho se redime. Segundo ele, não se veiculam no jornalismo informações mutiladas para interesse próprio. Elas são de fato crias do jornalismo. Contesta (e eu concordo desta vez) que “acusar o jornalismo de manipulação é incorreto porque isso tem a ver com debate lógico entre essência e aparência, real e falsificação”. O jornal não mutila as notícias, ele as cria como foi dito anteriormente, portanto se é uma atividade ficcional, “não se pode acusar uma ficção de deturpar o real”, esta é a sua função, a sua razão de existir.
Ao igualar a imprensa aos “partidos políticos, líderes ideológicos, aos que agem em defesa dos despossuídos”, pelo fato de ter se vendido no século passado como uma instituição voltada para a sociedade e seus interesses, o autor revela que o poder sempre se escondeu sob a máscara de defensor e protetor dos mais fracos sem que eles (a imprensa) incumbissem a sociedade de tal tarefa.
A imprensa é como as igrejas e os políticos, uma instituição que busca agregar adeptos e usa de todas as armas para alcançar seu objetivo. Inclusive produzindo verdades. Cada meio tem a sua verdade e conta esta para o público da maneira que melhor que convém.
Uma última e, talvez, mais instigante questão posta pelo autor é: como se sustenta e sobrevive uma instituição (a imprensa) “que identificaria o fazer jornalístico como a crítica, a denúncia, a insubmissão a certas verdades (…) que repercutem de forma retumbante na sociedade inteira”, tendo em vista toda a transformação da sociedade e da função da própria imprensa?
Nem ele nem eu chegamos a uma resposta. O fato é que, de fato, jornalistas somos seres intrinsecamente revoltados e inconformados, semelhantes à boa parte da sociedade. O que nos diferencia é não nos comportar como Maria-vai-com-as-outras.