Maio 5, 2008...10:41 pm
Jornalismo em xeque
Por Emerson Viana
Desde o seu surgimento, ainda no século XVII, a imprensa desempenhou importante papel social. Alguns lhe conferem a alcunha de “o quarto poder”, em referência a sua capacidade de manipular a opinião do público. Mas esse poder mítico vem sendo enfraquecido. Ao velho procedimento de: coletar, verificar, editar e publicar a informação, uma das regras da prática jornalística, outros interesses têm sido sobrepostos. Na prática do jornalismo contemporâneo algumas questões tornaram-se determinantes no modus operandi das empresas de comunicação. Interesses políticos e econômicos, aliados ainda às inovações tecnológicas, mais do que nunca, resultaram em mudanças de velhos preceitos.
Num tom de autocrítica, o livro Os elementos do jornalismo – O que os jornalistas devem saber e o público exigir, dos autores Bill Kovach e Tom Rosenstiel (Geração Editorial, 2003), faz uma avaliação dos rumos tomados pelo jornalismo. Embasado por uma ampla pesquisa feita por meio de 21 fóruns com mais de 3 mil pessoas e com o depoimento de 300 jornalistas, busca-se responder à questão principal: até onde o conflito entre interesses jornalísticos e comerciais pode comprometer conceitos como neutralidade e imparcialidade? Orientados por este questionamento, um grupo chamado Committee of Concerned Journalists (Comitê dos Jornalistas Preocupados), formado por 25 dos mais influentes jornalistas americanos, norteia suas considerações sobre os verdadeiros valores que devem prevalecer no exercício da profissão.
É incontestável que a credibilidade da imprensa junto ao público vem sendo afetada em razão da interferência de fatores como publicidade, entretenimento, índice de audiência etc. As estratégias de apresentação da informação têm preterido a qualidade, o conteúdo, a veracidade em função de um consumo rápido, desprovido de reflexão e crítica. Em contraponto a este desgaste, o livro apresenta princípios segundo os quais o jornalismo deve se basear a fim de proporcionar informações independentes de qualquer interesse que não o de informar. Talvez entre eles os mais importantes sejam os que dizem: a primeira obrigação do jornalismo é com a verdade e sua primeira obrigação é com os cidadãos.
Os elementos do jornalismo é dividido em dez capítulos. Em cada um deles desenvolve-se a reflexão sobre um princípio extraído da pesquisa que deu origem à obra e que deve reger um jornalismo comprometido com o que se acredita ser a essência do jornalismo: “fornecer informação às pessoas para que estas sejam livres e capazes de se autogovernar”. Em todas as passagens, casos reais e até históricos, como o caso Watergate, servem de introdução para melhor ilustrar a discussão de cada um dos elementos abordados. Além disso, temas importantes como objetividade, isenção e equilíbrio são discutidos de maneira a desmistificar interpretações distorcidas.
De uma forma crítica e franca, mas nada pessimista, o livro encerra com um discurso de esperança na recuperação de antigos ideais. Ainda que a liberdade de imprensa esteja sendo tão questionada e posta à prova, o bom senso e o sentido ético devem prevalecer sobre pressões para agradar diretores ou anunciantes. Esta bela obra é indicada a todos profissionais de comunicação, ao público, que deveria se informar sobre todo o processo como a notícia é trabalhada, mas, principalmente, para os estudantes, futuros profissionais de jornalismo.
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