Maio 5, 2008...10:50 pm

Desrespeito à melhor idade

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Por Camilla Sanches

 

O Estatuto do Idoso completa cinco anos de existência em setembro e, ainda hoje, direitos elementares da terceira idade são desrespeitados. De acordo com o artigo terceiro do estatuto, “é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária”.

Ao longo das últimas semanas, vários casos de maus-tratos a idosos foram veiculados na imprensa. Muitos desses casos aconteceram em asilos, onde eles vivem, ou em suas próprias casas, cometidos pelos encarregados de “cuidar” dos velhinhos. Vizinhos dos abrigos e lares de repouso denunciaram à polícia a suspeita de maus-tratos depois de ouvir barulhos estranhos, gritos e choro dos idosos. Os casos ocorridos em casa foram denunciados pelos próprios familiares que, desconfiados do comportamento do idoso, instalaram câmeras de segurança escondidas na residência para vigiar os empregados. Desde então, alguns abrigos em várias cidades do país foram interditados e os idosos, encaminhados para outras casas de repouso.

Em Taguatinga, um asilo tem o nome de Lar dos Velhinhos, todavia mais adequado seria chamar-se “lar das velhinhas”, pois tem como moradoras 33 adoráveis senhoras de terceira idade. O lugar só poderia receber no máximo 30. Contudo, chegam pessoas que viviam abandonadas pelas ruas. Como não têm para onde ir, a irmã Iracema, que cuida diretamente das idosas, dá um jeitinho seguindo o dito popular que diz: “Em coração de mãe, sempre cabe mais um”. É uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, que sobrevive, essencialmente, com a ajuda de doações e com a colaboração e o carinho dos muitos voluntários e voluntárias.

A grande maioria dos médicos, nutricionistas, bioquímicos, clínicos e psicólogos são voluntários que disponibilizam um ou dois dias da semana para visitar o lar e atender às senhoras que precisam de cuidados específicos. Muitas delas gozam de boa saúde física e mental, conseguem se locomover sozinhas, sem necessitar da ajuda de outrem, enfim, vivem no abrigo por vontade própria ou por que a família mora muito longe, ou viaja muito a trabalho como é o caso da senhora Esmeralda Taumaturgo. Ela vive no asilo porque seu único filho trabalha fora do país como jornalista, mas visita a mãe sempre que vem ao Brasil. A grande maioria das idosas nunca se casou ou perdeu seus maridos. Os parentes mais próximos de algumas são primos e, muito raramente, irmãos.

No Lar dos Velhinhos, cada idosa dorme em quarto compartilhado com mais duas ou três senhoras. Privacidade é algo de que elas reclamam um pouco, porém são muito bem tratadas e cuidadas pelas irmãs, funcionários e voluntários do abrigo. Dona Esmeralda, velhinha bem arrumada, vaidosa e um tanto discreta, se for com a sua cara, ela se solta e confidencia: “Elas aqui tratam muito bem a gente. Não tenho o que reclamar. Cuidam de nós com muito carinho.”

Assim como Irmã Iracema, a sociedade partilha da opinião que casos de maus-tratos a idosos, tanto nos asilos e abrigos quanto em suas residências, são resultado de uma falta de preparo dos encarregados de cuidar deles, bem como falta de respeito à pessoa humana. Indignada, a irmã ressalta que falta consciência e amor ao próximo por parte daqueles que deveriam tomar conta e tratar bem de pessoas que já contribuíram com tudo que podiam para a sociedade. Pessoas que hoje precisam de cuidados e não pedem mais que um pouco de carinho e atenção.

Dona Antônia, que cuida de idosos há alguns anos, também não entende como podem existir seres capazes de tamanhas atrocidades contra outros seres humanos, estes incapazes (ou impossibilitados) de se defender. “Acho que quem não gosta de idoso ou não se sente bem cuidando deles deveria procurar trabalhar em outro ramo, ao invés de descontar suas frustrações profissionais em que não tem culpa nenhuma e não tem condições de se defender”, diz inconformada. Indignados, tanto ou mais que ela, estão grande parte dos cidadãos deste país, com atos tão brutais que temos acompanhado freqüentemente, ano após ano nos noticiários.

Falta o que a esses seres chamados humanos? Amor, preparo, cuidado educação ou pura e simples consciência? Senso de justiça, de dignidade, de fraternidade para com o próximo? Não esquecendo, pois, que esse próximo é o espelho do que são nossos pais, avós, tios. Retrato vivo do que um dia seremos nós…

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